8.11.09

 

Saramago - A Polémica Inútil


Assistimos há poucos dias a uma espécie de polémica, a propósito de novo livro de José Saramago. O nosso Nobel retoma em Caim o tratamento de figuras bíblicas, desta vez do Velho Testamento.

Sem entrar na discussão do livro que não li, nem tenciono ler, assoberbado com leituras atrasadas, todas elas prioritárias em relação à eventualidade de qualquer leitura de obras de Saramago, de que, contudo, li algumas, com apreço diverso, irei tecer, no presente artigo, considerações suscitadas pelas tonitruantes declarações do autor, na apresentação da obra.

Esclareço que, com estas palavras, não pretendo retirar ou sequer diminuir o valor literário de José Saramago. Reconheço, com naturalidade, a sua enorme e surpreendentemente duradoura capacidade de escrita, a sua fértil imaginação ficcional, o seu largo fôlego narrativo, a sua disciplina de trabalho, qualidades invulgares em qualquer criador intelectual que o mantêm particularmente activo, apesar da sua provecta idade, no difícil ofício das letras.

Considero também que o Prémio Nobel com que a Academia Sueca distinguiu o seu talento trouxe honra e prestígio a Portugal e à literatura de Língua Portuguesa, em geral, tendo-se assim posto cobro a um estranho esquecimento que pesava como chumbo sobre uma das culturas literárias europeias mais antigas, especialmente rica em produção e em originalidade.

Desde o século XV que em Portugal têm existido vultos literários que podem equiparar-se aos que por esse mundo fora, ao longo dos séculos, se foram notabilizando, apenas mais conhecidos, por pertencerem a países que, em devido tempo, os souberam divulgar, impondo-os à admiração dos demais, por meio de técnicas publicitárias, sustentadas no prestígio conquistado noutras áreas da actividade humana.

A Literatura Portuguesa, só no século dezanove, pode apresentar um escol de escritores que, no seu conjunto, a tornariam, apenas por si, forçosamente rica e prestigiada. Nomes como Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Eça de Queiroz, António Nobre, Cesário Verde, para não citar mais, bastam para afirmar qualquer literatura nacional.

No século XX, logo no seu início, surge o genial Fernando Pessoa que, embora tardiamente reconhecido em Portugal e no estrangeiro, mal avaliado, depreciado mesmo, quase se diria ignorado, excepto de um pequeno número de seus pares, haveria de tornar-se num dos escritores mais conhecidos e apreciados do mundo.

No decurso do século, vários outros nomes apareceram, com talento e obra bastantes para merecerem o ambicionado prémio, como Ferreira de Castro, Aquilino Ribeiro, José Régio, Miguel Torga, Vergílio Ferreira, Sophia de Melo Breyner, Jorge de Sena, todos eles com valor mais do que suficiente para honrarem a atribuição do Nobel.

José Saramago, quase no final do século, acabaria por resgatar-nos do afrontoso esquecimento em que a Academia de Estocolmo persistia em deixar-nos. Todo o país, praticamente, saudou Saramago, passando até por cima de anteriores incidentes, como o da exclusão de um livro seu, na candidatura a um prémio instituído pela União Europeia, com os decorrentes apartes, adrede estridentes, do astuto Saramago.

A atitude, sem dúvida condenável, de um Sub-Secretário de Estado de um Governo de maioria absoluta de Cavaco Silva, de nome Sousa Lara, foi habilidosamente aproveitada por Saramago, que dela fez imenso escândalo, quase levando o caso a confundir-se com proibição oficial, perseguição intelectual, discriminação editorial, etc., quando afinal o livro havia sido publicado regularmente, não tendo sequer colhido interesse significativo da parte do público leitor, apesar da publicidade que já então havia rodeado a sua edição.

Saramago, na altura, desfez-se em entrevistas, indignado, e encenou a saga do escritor desconsiderado e até perseguido pelo Estado Português, tomando, creio, depois disso, a decisão de radicar-se em Espanha, na ilha de Lançarote, no Arquipélago das Canárias, ao lado da sua amada Pilar, que assim nos «roubava» importante autor, a que estariam ainda destinados altos êxitos literários, os quais culminariam, em 1998, na consagração do Nobel.

Em Espanha, o carinho manifestado com Saramago assumiu proporções inusitadas, tanto mais que aí sempre as letras portuguesas haviam passado, de ordinário, despercebidas.

Terá sido mérito de Pilar, jornalista bem relacionada com a Comunicação Social espanhola, politicamente empenhada nos meios da Esquerda cultural e social, tradicionalmente influentes nos órgãos da informação, a projecção atingida por Saramago no país vizinho. A verdade é que Saramago, com Pilar a seu lado, passou a gozar, em Espanha, de um estatuto absolutamente inédito entre escritores, artistas ou intelectuais portugueses.

Sucederam-se as distinções, com Doutoramentos Honoris Causa de várias universidades, mesmo antes da atribuição do Nobel e os livros de Saramago, traduzidos para castelhano, a partir de então por sua mulher Pilar, atingiram números de vendas impressionantes em Espanha, em nítido contraste com a tradicional escassa atenção aí dedicada aos nossos escritores.

Chegaram até a chamar-lhe escritor ibérico, parecendo com isso que Espanha desejaria integrá-lo no seu próprio património cultural, facto absolutamente excepcional no universo das relações culturais luso-espanholas, só comparável com o sucedido com algumas figuras notáveis da nossa literatura de quinhentos, que escreveram em castelhano, seguindo o costume bilingue da época, em Portugal.
Gil Vicente e Camões usaram deste costume, como é sabido, com frequência e brilho invulgar. Ao que consta, só o inexcedível patriota António Ferreira, o dos célebres Poemas Lusitanos e da tragédia Castro, sempre se recusou ostensivamente a seguir tal prática.

Suponho que desde o desaparecimento da nobre figura de D. Miguel Unamuno, esse grande vulto das letras espanholas, profundo conhecedor e apreciador de Portugal, da sua História, da sua Literatura e do seu Povo, não se dava, em Espanha, tanta importância a um representante da cultura portuguesa.

Em parte, teremos de imputar este êxito aos inegáveis méritos literários de José Saramago, mas, sem dúvida também, à insofismável influência de sua mulher, Pilar del Rio, nos meios mediáticos de Espanha.

Sucede que, se praticamente todos nós reconhecemos e apreciamos os efeitos benéficos da popularidade de Saramago, em Espanha e no resto do mundo, para a cultura portuguesa, tal não implica que devamos aceitar ou desculpar os excessos verbais com que José Saramago tem brindado Instituições e personalidades do seu próprio país.

Em particular, a sua obsessão em atacar a Igreja, em cada apresentação pública do seu Caim, assemelha-se a qualquer coisa encenada, teatralizada e esconderá porventura uma amargura que, no fundo, residirá insepulta, no seu destroçado coração de comunista.

Na verdade, Saramago viu ruir a utopia putativamente emancipadora da chamada classe redentora da Humanidade, o Proletariado, que, aliado ao campesinato desprovido, haveria de conduzir-nos ao limiar de uma nova era de suprema felicidade, consumada, aqui na Terra e não no Céu, como até aí cria essa mesma Humanidade, como rezavam as vulgatas marxistas desses «tempos heróicos», que Saramago certamente leu com devoção.

Espantosamente, tamanha tragédia nunca lhe mereceu, até hoje, a dignidade de uma reflexão em forma de livro.

Bem pelo contrário, em lugar de exercer a sua forte capacidade reflexiva para indagar a razão de tão evidente falhanço, em lugar de buscar entender as causas da estrepitosa derrocada do Comunismo, na Europa, em vez disso, Saramago investe contra a ideia de Deus, a Igreja e a sua Doutrina, matérias em que o seu conhecimento e experiência são manifestamente insuficientes, reduzindo-lhe inexoravelmente o alcance e a credibilidade do cometimento.

Como qualquer pessoa poderá confirmar, a Igreja, a Católica, subentenda-se, porque é sempre esta a preferida dos ataques dos intelectuais esquerdistas do Ocidente, não o persegue, nem a ele, nem a nenhum outro artista ou intelectual contemporâneo, havendo definitivamente passado e vencido o seu tempo de arrogância e de presunção.

Pelo contrário, a Igreja Católica sofre, na actualidade, descabelados ataques de irados intelectuais que esgotam inutilmente o seu radicalismo contra quem não os ofende nem, muito menos, os persegue, ao mesmo tempo que contemporizam ou deixam passar em silêncio gravíssimos atropelos aos direitos humanos praticados em nome de outras Igrejas ou Credos, nomeadamente do Islão.

Esta aparente desatenção, por muito que o disfarcem, só poderá ter, para nós outros, comuns mortais, mas observadores atentos da realidade, um dos seguintes entendimentos: trata-se ou de pura cobardia intelectual ou, teremos de acreditar, estarão tomados de exacerbado masoquismo, que cobra porfiado prazer num permanente exercício de autoflagelação.

Num momento em que a Igreja Católica assume convictamente posturas das mais abertas, tolerantes e confraternizantes de toda a sua História, em contraste com o acelerado recrudescimento de diversos fundamentalismos de outros Credos, é precisamente contra ela que esses radicais se empertigam, numa exibição gratuita de fácil heroísmo, em absoluto deslocado no tempo e no objecto.

Saramago, em Portugal, parece querer ficar como Patrono de tão despropositado radicalismo, ensaiando uma querela sem qualquer novidade ou interesse, típica das que agitaram os botequins do século XIX, quando o anticlericalismo neles fazia furor, particularmente em Portugal, em que assumiu invulgares contornos criminosos com acções de rara violência e ousadia praticadas por sociedades secretas jacobinas, como a Carbonária.

Esse tempo conturbado passou também, com as ilusórias promessas de um imaginado Republicanismo salvífico, sucedâneo da religião oficialmente postergada, na boca de demagogos incendiários, cujo reinado, como se sabe, terminaria mal, ante o desapreço do Povo Português, expectante do fim do caos.

Este chegaria, para alívio de todos, sob a forma de coluna militar, para o efeito descida de Braga até à capital, quase em ritmo de passeio, sem sequer encontrar oposição, tal o enfado geral da situação que se havia atingido.

Tudo isto estará esquecido de muitos. De outros, por comodidade, terá sido arredado da consciência, mas haverá sempre quem não desista de evocar factos históricos menos palpitantes, como cumpre, em tempos de adversidade.

Saramago, hoje, descrê do Homem, depois de, provavelmente, ter sofrido a grande decepção da sua vida política, com o colapso do Comunismo, na sua vera Pátria de origem, mas escusa de induzir-nos em erro, equivocando-nos de adversários ou inimigos.

Gostaria eu, como certamente muitos outros portugueses, de sugerir, a Saramago, acaso a sua proverbial teimosia lhe permitisse acolher semelhante conselho, que abandone o seu esforço inglório de exegeta bíblico, de repente exaltado, mas atrasado no tempo, para se votar a outros mais profícuos objectivos, para si e para os seus coetâneos concidadãos.

Mal aparelhado para essa função, de vistas curtas e rígidas, Saramago deveria antes entregar-se à meditação que ainda não fez e que a si mesmo deve, como a tantos outros que consigo partilharam a grande utopia política do século XX, terminada subitamente, sem honra nem glória, há cerca de vinte anos, ante os olhos incrédulos de milhões, em todo o mundo, colados às imagens desconcertantes, sequer sonhadas, que a televisão, na época, copiosamente nos transmitia pela casa dentro, trazendo-nos a História em directo, em toda a sua crueza.

Na hora presente, há uma evidente escala de prioridades a estabelecer nas batalhas que nós, portugueses e europeus, teremos de travar. Por isso mesmo, não devemos perder tempo com controvérsias inúteis, improfícuas e descabidas, quando sobram as que tarde ou cedo haveremos de enfrentar.
Isto, se até lá, com a nossa desnorteada maneira de viver, não nos atolarmos na corrupção, na cupidez e numa espécie de vale tudo pseudo-liberal, sob o império de um consumismo alienante que ameaça destruir-nos

AV_Lisboa, 08 de Novembro de 2009

18.10.09

 

Tolices Brasileiras

Apesar da sua pequena relevância intrínseca, gostaria de tecer aqui duas ou três considerações acerca do episódio da actriz brasileira, Maitê Proença, que, na semana passada, alvoroçou parte da comunidade portuguesa.

Sentiu-se esta justamente despeitada com a suposta peça humorística em que aquela actriz zombava do paciente e generoso povo português, o mesmo que, para certa mentalidade brasileira, permanece amodorrado numa persistente e irredimível boçalidade, resistente a todo o impulso da roda da História e do Progresso.
Também fui ver a dita peça da infeliz actriz brasileira, que, na verdade, deixou ali uma péssima ideia da sua valia profissional, bastante meritória, diga-se, embora longe do excepcional.

Com efeito, a senhora pretendeu gozar com a nossa gente, que é também gozar com a sua, porque os brasileiros, gostem ou não, são uma invenção lusa, muito mais do que italiana, alemã ou outra, como por vezes parecem querer apresentar, pela atenção que lhes dedicam, em especial nas telenovelas de consumo popular.

Tudo aquilo que a desastrada senhora faz nesse vídeo é de uma pobreza artística confrangedora, assente na maior inanidade intelectual. Não fosse ela ter troçado de símbolos maiores da nossa e da sua cultura e o caso não ganharia tanto significado.

Mas a senhora ousou conspurcar nada menos que a bela e poética Sintra, na sua boca uma « vilazinha » perto de Lisboa, o Mosteiro do Jerónimos, a jóia rara manuelina que o senso artístico português legou ao Património da Humanidade, e até Camões surge chamado àquela mixórdia, imaginadamente humorística que ela vai enxertando no vídeo agora mostrado em Portugal.

O facto de ele se referir a um programa televisivo de há dois anos não lhe retira gravidade. Nele vemos ainda um grupo de elegantes mulheres brasileiras em airosa cavaqueira, todas tomadas de gáudio com a troça que Maitê faz de Portugal e dos Portugueses.

Ameaça, pelo visto, eternizar-se este vezo de os brasileiros invariavelmente troçarem de Portugal. A produção de inúmeras anedotas a este respeito parece ter-se tornado uma actividade extremamente popular por parte dos nossos putativos irmãos do outro lado do Atlântico.

Diz-se que este fundo de ressentimento contra Portugal vem do tempo em que o Brasil foi sua colónia e nessa qualidade tratada pela Metrópole.

Custa, na realidade, a aceitar que tenha perdurado até hoje tal ressentimento, porque a maturidade dos quase duzentos anos da nação brasileira já o deveria ter dissolvido, no conjunto da herança legada, que inclui, lembremo-lo, o território imenso, uno, coeso, indiviso, ligado por uma Língua culta e bela, assi mesmo reconhecida pelos maiores poetas e escritores brasileiros, uma religião, a católica, largamente maioritária, que lhe conferiu uma feição civilizacional semelhante à que na Europa resultou da contribuição cultural greco-latina e cristã, tudo isto deveria ter sido mais do que suficiente para relegar para segundo plano os factos negativos sempre associados, de forma desajustada, porém, a uma relação de país colonizador para com país colonizado.

Acontece que os actuais brasileiros mais azedados com a herança lusíada são os descendentes de portugueses e outros europeus, ou seja, os mais directos beneficiários dos privilégios dos colonizadores.

Se fossem os descendentes dos Índios, primitivos habitantes da terra brasílica e seus legítimos senhores, ainda poderíamos compreender certo fundo de animosidade, não completamente desvanecido, pelo choque e pelo esbulho territorial sofridos com a introdução no seu meio dos europeus, no caso, os portugueses, embora esta tenha sido sempre a sina das relações entre os povos, desde os mais longínquos tempos.

Por regra, os povos puseram-se em marcha em busca de terras, de riqueza e do desconhecido e os mais apetrechados culturalmente exerceram domínio sobre os restantes, uma vezes por aceitação voluntária destes, outras, talvez a maioria delas, pela violência, pela superioridade técnica das armas usadas, etc., etc.

Com o rolar dos séculos, a apreciação que se faz destes choques tem mudado. Assim, hoje, aqui na Península Hispânica, considera-se um bem a chegada dos Romanos, pelo seu legado civilizacional.

Coisa muito diversa deveriam os antigos Lusitanos ter achado, a julgar pelas guerras de guerrilha que lhes moveram, persistentes, que só o suborno e a traição de alguns companheiros do chefe dos Lusitanos, o lendário Viriato, permitiram aos romanos levar de vencida a tenaz resistência lusitana.

No Brasil, deve ter-se passado algo de semelhante com os Índios, que ali «dormiam» legitimamente o seu sono civilizacional, contentes com a cultura que tinham, numa prática de povos recolectores, caçando e pescando, quando tinham fome e dançando as suas danças, em honra dos seus deuses protectores quando os queriam invocar.

Até que apareceram uns barbudos que, admirados das suas vergonhas expostas, na linguagem pitoresca da célebre carta de Vaz de Caminha ao rei Manuel, sempre um Manuel, para despertar a ira brasílica, pretenderam civilizá-los, pô-los a rezar ao Deus verdadeiro, a trabalhar para benefício alheio, o que, compreensivelmente, não lhes deve ter caído nada bem.

Curiosamente, não são os descendentes destes povos que hoje hostilizam ou surgem a escarnecer dos portugueses, mas sim os seus continuadores na dominação, de quem os indígenas terão porventura ainda mais razão de queixa, pela contínua prática de exploração a que os têm submetido.

Enfim, já nos distanciámos algo da nossa patética Maitê, que, eu próprio, imaginaria intelectualmente mais dotada, já porque, dizem, escreve livros, coisa que exige reflexão, para além do domínio das regras gramaticais, coisa que certos brasileiros teimam em considerar como herança afrontosa, limitadora da sua fértil imaginação criativa, apesar dos numerosos bons exemplos dos seus compatriotas, que têm enriquecido o património comum da Língua, libertos dessa pretensa subjugação espiritual de origem portuguesa.

Resta-nos esperar que sejam os próprios brasileiros a dar-se conta do absurdo em que vivem, quando alimentam esses ressentimentos contra Portugal, terra de onde partiram aqueles a quem mais devem a sua existência cultural, onde existe uma generalizada simpatia para com o Brasil, comprovada numa presença bastante assídua de manifestações culturais brasileiras, na rádio, na televisão, no teatro, no cinema, em contraste com a sua quase ausência de reciprocidade.

Portugal gosta do Brasil, ainda que pareça tratar-se de um amor não correspondido, sente orgulho em ter criado aquela grande Nação e olha para ela com a indulgência natural de um Pai ante as irreflectidas ofensas de um filho, as travessuras praticadas em prova de afirmação de personalidade, sempre esperançado em que o avançar dos anos lhe traga a desejada sensatez, o equilíbrio das avaliações patrimoniais, para com ele se congraçar em verdadeiro gozo de mútua compreensão.

Desejemos, pois, que melhor inspiração caia sobre a cabeça desta elegante actriz brasileira, que aqui teve um péssimo momento da sua não despicienda vida artística, até associada a coisas portuguesas.

Vimo-la, com genuíno apreço, no excelente filme da adpatação do romance de Ferreira de Castro, A Selva, em que ela, no papel da insatisfeita D. Iá-Iá, contracena com o nosso então ainda nascente galã Diogo Morgado, no papel de Seu Alberto, moço letrado, expatriado, ali perdido na selva amazónica, comendo o pão que o diabo amassou, com a cabeça toldada pela insinuante presença de D. Iá-Iá, a nossa inefável Maitê, aqui ainda em plena posse dos seus melhores atributos.

Dizem-nos que Maitê está arrependida e já pediu desculpa aos Portugueses do seu desatinado acto. Esperemos que a declaração seja sincera e que o seu comportamento futuro disso mesmo nos convença.

AV_Lisboa, 18 de Outubro de 2009

 

A Política Honrada que Falta


Há momentos em que nos sentimos redimidos da luta que travamos pela objectividade na Política, procurando sempre analisar os fenómenos políticos, pelo que eles são em si mesmos e não em função do interesses particular ou do proveito que cada grupo neles encontre ou deles deseje retirar.

Sei que muitos não crêem nesta possibilidade, contrapondo que, na Política, só existem opiniões baseadas na subjectividade de cada grupo ou indivíduo. Esta visão, maioritária, sem dúvida, nasce da orientação meramente imediatista, oportunista e hedonista típica da época em que vivemos.

Com ela se formou a presente mentalidade que tudo mede pelo mais razo materialismo, como se a Humanidade contasse já os seus últimos dias de prazer e neles buscasse, com sofreguidão, o Carpe Diem dos Romanos, no esplendor da sua inelutável e terminal decadência.

Mas, se isto é assim para as maiorias que marcam o comportamento colectivo da época actual, cumpre reconhecer que, como em todos os tempos, continua a existir quem se recuse a ir na enxurrada, persistindo em ver com os seus próprios olhos e em avaliar com a sua própria inteligência os fenómenos que vão ocorrendo à sua volta.

Têm estas palavras que ver com o que se passou no País, nas semanas que precederam os dois últimos actos eleitorais, oportunamente verberado no justíssimo artigo intitualdo « Está Tudo Doido em Portugal » que José António Saraiva escreveu no Sol, no passado dia 9 de Outubro.

Com este artigo, JAS voltou a provar que pertence à estirpe dos Saraivas, a começar pela do seu Pai, o saudoso e eminente historiador da cultura portuguesa, António José Saraiva, autor de obras luminosas de sabedoria e originalidade, quer no domínio literário, historiográfico, político, quer mesmo no do estrito campo filosófico.

De resto, nos últimos anos e nas suas derradeiras obras era já evidente a sua forte inclinação reflexivo-filosófica, marcada por acentuada visão pessimista do nosso tempo, do ponto de vista intelectual, no entanto, extremamente estimulante, muito mais do que a dominante verborreia optimista, balofa, sem suporte na realidade.

Não admira que os acólitos incondicionais do Partido Socialista não tenham gostado deste artigo, como tampouco hão-de ter gostado do que esta semana JAS consagra ao humor televisivo dos Gatos Fedorentos, claramente contra a corrente do seu exaltado elogio, dado como novo boi Ápis da sociedade lusitana, que mantém subjugados quase todos os actuais agentes políticos, no seu espectro mais alargado.

Que crédito merecerá quem se mostra sempre disposto a justificar tudo aquilo que o seu Partido faz, ainda que contrariando a sua suposta doutrina, preceitos ou compromissos assumidos, promessas afirmadas, programas forjados e propostos com solenidade ao País deles expectante ?

Quem assim se comporta, procede mais como fanático membro de seita, do que como livre militante de uma organização política que se propõe lutar pelo bem comum da sociedade mais ampla a que pertence e não pelo exclusivo interesse daquela que apenas agrega os seus putativos correligionários.

Vê-se que, na actualidade, a Política em Portugal assenta numa hipocrisia circular que a todos toca e cativa, a par do comércio desmedido em que se atolou, na proporção em que esqueceu fundamentos e abandonou doutrinas, reduzindo tudo a jogos de interesses que têm de ser continuamente tecidos e atenciosamente servidos.

Tal espectáculo já a poucos surpreende e a menos ainda repugna. A prática política assim conduzida vai minando a sua credibilidade. Na verdade, na luta política não pode valer tudo. A luta política não deve servir para justificar todo o tipo de artimanha utilizado para desacreditar os adversários em presença, muito menos quando aquilo que distingue os contendores é, na verdade, escasso, em número e irrelevante, na ideologia.

Chega a ser desconcertante, analisar a pobreza ideológica ou doutrinal em que vivemos. Dir-se-ia que, politicamente, se deixou de pensar, porque aquilo a que se assiste é tão-só à discussão de formas de alcançar o Poder, técnicas de marquetingue adequadas a convencer as pessoas, o eleitorado a votar.

Uma vez no Poder os Partidos assemelham-se todos, tratam, fomentam negócios, se possível com contrapartidas imediatas ou a prazo, para quem os fomentou, individualmente ou para organizações, fundações ligadas aos Partidos a que os membros do Governo pertencem.

Se todos se resignarem com isto, a Política, como actividade nobre, acabou. Pelo visto, muita gente parece conformar-se com tal panorama, tanta, que até julga que vence, quando o seu Partido ganha eleições.

Talvez as multidões necessitem desta permanente ilusão. Por isso, gostam tanto de associar-se a algo ou alguém que lhes dizem ser vencedores.

Com o Futebol, desonrosa comparação, acontece o mesmo. As massas querem que o seu clube vença sempre, se não com mérito, mesmo sem ele, ainda que seja preciso fazer batota, como confessava a nossa simpática menina mandatária da juventude do Partido Socialista, a tal que prefere comer fruta sem caroços, nem grainhas ou então que haja empregadas que se ocupem da tarefa trabalhosa do seu desencaroçamento.

De resto, cada vez as pessoas assumem com a Política uma atitude semelhante à que mantêm com o Futebol, onde o que conta sempre e acima de tudo é vencer, ser campeão, altar em que se sancionam todos os meios, lícitos, semi-lícitos ou fraudulentos.

Infelizmente, a complacência com a corrupção e a desorganização do sistema judicial, acabam por premiar tão venais atitudes e tão ínvios caminhos trilhados na estrada do assim perseguido sucesso.

Como se poderá inverter esta tão desanimosa situação, se a maioria da população parece aceitá-la como inelutável, se não mesmo como normal ?

Talvez por isso alguns achem que a regeneração só poderá vir de cima, quando lá chegar alguém que a queira e a possa desencadear.

Porventura chamarão alguns a isto messianismo populista ou certo caudilhismo encapotado, mas, em alternativa, que poderão convincentemente preconizar, fora do ramerrão político-partidário em que temos vivido ?

Entretanto, deveremos continuar a denunciar o mal e a encomiar o bem. Que outra coisa resta a quem deseja permanecer na senda da decência humana ?

De novo e sempre : Nihil desperandum...

AV_Lisboa, 17 de Outubro de 2009

7.10.09

 

Interlúdio Eleitoral


Passaram já dois meses desde que aqui deixei a última crónica intitulada «Os Grandes Comunicadores».

Entretanto, realizaram-se eleições legislativas a 27 de Setembro e dentro de dias, no próximo Domingo, teremos eleições para as autarquias locais, perfazendo, desde as eleições para o Parlamento Europeu, quatro intensos meses de agitação e propaganda política, entontecendo um pouco mais este pobre povo, manso e crédulo, sempre levado em artificiosas romarias, aí pretensamente matando a sua pesada e já algo longa frustração política pós-abrilina.

Desde há cerca de três lustros que o País não apresenta crescimento económico significativo, sendo que em 4/5 deles tem sido governado pela longa e difusa mão de um Partido Socialista ideologicamente descaracterizado, rendido entusiasticamente às doutrinas económicas e financeiras do neoliberalismo e da globalização dos mercados, apesar das tentativas de disfarce dos últimos meses, meramente retóricas, quando a derrocada financeira americana se tornou evidente aos olhos de todo o Mundo.

Sócrates vencedor em 27 de Setembro passado, mesmo sem maioria absoluta, não deixa de constituir uma injustiça política, assente num equívoco popular de graves consequências.

Podem dizer que as alternativas eram fracas ou pouco convincentes, mas o que se julgava, em primeiro lugar, era uma Política de quatro anos, durante os quais Sócrates, então com maioria absoluta, atrofiou economicamente o País, fazendo tudo ao contrário do que havia prometido, carregando nos impostos o mais que pôde, sem diminuir a despesa pública, que continou a aumentar, ao sabor do povoamento que ele ia promovendo, assegurando lugares aos seus apaniguados, esquecidos de doutrinas e de ideais remotamente socialistas, mas ciosos da sua influência sempre crescente no aparelho de Estado.

O partido que poderia e deveria combater severamente esta Política, o Partido Social Democrático, andou longe do caminho certo para travar este combate. Enredado em lutas internas fratricidas, sem norte durante largo tempo, reanimado com o súbito e enérgico aparecimento de Paulo Rangel, a quem, em grande parte, se ficou a dever a vitória eleitoral de Junho, não logrou encontrar o rumo adequado, nem a orientação que se esperava.

Manuela Ferreira Leite nunca teve instinto político para conduzir o Partido, apesar da sua determinação anti-socrática. Mal rodeada, mal aconselhada pelas nulidades costumeiras, não soube explorar as imensas fragilidades de Sócrates, permitindo-lhe pavonear-se pelo País como arauto da Modernidade balofa, quando não tola e com frequência venal, assistido por uma central de propaganda especialista em fabricar incidentes e em marcar agenda política, com a conivência da maioria da Comunicação Social, só se discutindo aquilo que interessava à dita Central socrática.

Nem a presença de JPPereira, com a sua reconhecida perspicácia política, parece ter contribuído para aumentar a clarividência da direcção da campanha de MFLeite.

Veja-se como rapidamente saiu da discussão pública o caso do afastamento de Moniz e Manuela Moura Guedes, para se debater o momentoso tema das escutas telefónicas da Presidência da República, mal gerido também por Cavaco Silva, que carece nitidamente de adequada assessoria estritamente política, goste o Presidente ou não desta matéria, a verdade é que sem ela não se ganham eleições, nem se exerce a gestão macro-económica do País.

Também em nada ajudou certamente a repescagem política feita por MFL de figuras desprestigiadas e sob suspeição ética permanente, fornecendo à Central socrática matéria para dispersão de atenções, em que é perita, mesmo sabendo que conta no seu seio com casos idênticos ou mais graves, a começar na figura do seu actual líder.

Tudo isto acabou por levar a nova vitória do embuste socrático, que nada de bom pode augurar para o País.

O Povo escolheu esta solução, o que, dentro das regras do sistema democrático vigente, por todos aprovado, tem de ser aceite, concordemos ou não com a opção tomada.

Isto, contudo, não representa mais nada, nem serve para sancionar mais coisa nenhuma, nada valendo como atestado de idoneidade intelectual, ética ou profissional, como nos lembram os múltiplos exemplos de vitórias eleitorais de autarcas envolvidos em processos de corrupção, alguns até já condenados em Tribunal.

A nova vitória do PS significa apenas que há uma maioria relativa de Portugueses que o preferiram a ele e não aos outros Partidos, para formar o próximo Governo de Portugal.

Cabe aos adversários do partido ora vencedor, nomeadamente ao PSD, reabilitado, reformulado, depurado da remanescente ganga anti-social-democrática que nele persiste, continuar a luta pela desmistificação da política «socrática» e esperar que o Povo fique persuadido da sua nocividade.

Se o souberem fazer, se afirmarem a sua própria credibilidade política, certamente que o Povo, no momento azado, mudará o seu sentido de voto.

Até lá, ânimo para o combate, porque, como diz este mesmo Povo, não há mal que sempre dure...

AV_Lisboa, 06 de Outubro de 2009

5.8.09

 

Os Grandes Comunicadores


Há tempo que ando para escrever alguma coisa sobre os chamados grandes comunicadores.

Como percebemos, a nossa época valoriza em extremo a capacidade comunicativa dos cidadãos, sobrepondo-a a outras qualidades mais importantes, para os próprios e para a sua convivência com os seus semelhantes.

Começa por haver um tremendo equívoco sobre o que seja um grande comunicador, normalmente entendido como alguém que fala com desembaraço, rapidez, sem gaguejar, quase sem pausas, sem parar.

Já a avaliação daquilo que é dito pelo grande comunicador parece ter menos importância. Se é verdadeiro no que diz, se é sincero, bem intencionado, se o que afirma tem sentido lógico, racional, susceptível de ser entendido, confirmado, se apela para as qualidades intelectivas do auditório, etc., etc., tudo isto perde valor ante a prestação do suposto artista.

Para o ligeiro critério corrente, o que fundamentalmente conta é se fulano ou fulana foi convincente, assertivo, se falou com à-vontade, sem hesitar, se o auditório lhe deu atenção e o desejável assentimento. A verdade aqui, neste discreterioso juízo, conta pouco, a honestidade do locutor é coisa praticamente irrelevante.

Aquilo que acima de tudo vale é a figura do Comunicador, a sua apresentação, a sua colocação de voz, o seu ar de auto-confiança, de segurança no que afirma, na forma como se dirige ao auditório, melhor ainda se o interpela, se sugere perguntas, para lhe fornecer respostas rápidas, directas, supostamente esclarecedoras, mesmo se sacrificando parcial ou largamente a verdade ou o rigor do conteúdo do discurso.

Sobre a rapidez discursiva, convém logo que nos lembremos de certos vultos da Comunicação radiofónica ou televisiva para que este mito caia pela base.

Na minha adolescência conheci alguns excelentes comunicadores, principalmente divulgados na RTP de então, a preto e branco, com parcimónia de concursos, de prémios e de gritaria, a provar que nem sempre a Tecnologia é um bem em si mesmo.

Citarei apenas dois ou três exemplos de conquistadores de plateias : José Hermano Saraiva, David Mourão-Ferreira e Vitorino Nemésio, que tiveram na RTP, todos eles, Programas de longa duração, com público fiel e numeroso.

José Hermano Saraiva ainda hoje o podemos apreciar, apesar dos seus quase 90 anos, da sua voz enfraquecida, apesar do seu aspecto visivelmente debilitado. Mesmo assim, ainda ele nos prende a atenção, contando episódios da grande e da pequena História, revelando pormenores de casos e acasos da História geralmente desconhecidos da maioria do público.

A paixão que coloca nas suas charlas, mais que palestras, a forma directa de abordar os assuntos, o seu conhecimento pormenorizado das matérias, suscitam imediata adesão do público. Daí a explicação da sua longa sobrevivência na televisão portuguesa, ultrapassando regimes políticos e as suas imaginadas modas mediáticas.

Já o seu irmão António José Saraiva, competente, como poucos, em tudo o respeitasse à cultura literária portuguesa, escritor exímio na nossa Língua, não tinha vocação de Comunicador, faltando-lhe, sobretudo, presença de voz e à-vontade discursivo.

As suas raras tentativas de intervenção televisiva, mesmo em áreas onde o seu conhecimento era inquestionavelmente profundo, saldaram-se por outros tantos fiascos, demonstrando bem que há um mínimo de características naturais, inerentes à pessoa, absolutamente imprescindíveis para fazer dela um Comunicador.

David Mourão-Ferreira, que teve igualmente na RTP um Programa de largo fôlego chamado «Imagens da Poesia Europeia», foi outro fenómeno da Arte de Comunicar.

Nunca falava depressa, antes introduzia e matizava as suas pausas discursivas, com fumaradas expelidas do seu inseparável cachimbo, que parecia emprestar-lhe inspiração permanente.

Divulgou imensos autores, desde os clássicos da Antiguidade Greco-Romana, os medievos, passando pelos renascentistas, pelos barrocos, conceptistas, gongóricos, românticos, realistas, naturalistas, surrealistas, até aos contemporâneos.

Ele próprio declamava alguns dos poemas que seleccionava, sempre com distinta elegância, com pleno domínio dos seus recursos vocálicos, suportados num excelente timbre de voz, tirando todo o proveito das suas condições naturais altamente favoráveis para o objectivo da Comunicação.

Nunca falava, repito, com rapidez, com aquela obsessão moderna que leva amiúde os candidatos a Comunicadores a tornarem-se trapalhões, atropelando ou esmagando sílabas durante o discurso, perdendo assim este em clareza aquilo que erradamente eles pensam ganhar em rapidez.

O caso de Vitorino Nemésio era diferente e deveras original. Também Professor Universitário, de quem Mourão-Ferreira havia sido Assistente, na Faculdade de Letras de Lisboa, falava de forma algo lenta, aos arrepelões, aos solavancos, consoante a inspiração o movesse e as palavras lhe caíssem no discurso.

O seu Programa televisivo «Se Bem me Lembro...» que durou longos e sucessivos anos, feito sem notas, sem preparação, totalmente entregue ao desfiar da sua vasta e erudita memória, cativou muitos milhares de portugueses, criando-lhes gostos culturais, num tempo em que escasseavam os meios e o ambiente era de forte opacidade, dado o condicionamento a que toda a informação se encontrava submetida.

Com Nemésio, percebíamos que estávamos perante uma poderosa mente, que albergava imenso saber, aparentemente desordenado, mas logo subitamente alinhado, quando recuperava o fio e o ritmo da sua peculiar forma de raciocinar em frente das Câmaras. Mudava, com facilidade, de rumo, no discurso, ao sabor das suas divagações eruditas, mas logo retomava o curso pretendido.

Jamais esquecerei uma das suas charlas televisivas, em que dissertou sobre o átomo e a civilização moderna. Achei extraordinário, como um homem de letras, por excelência, sem formação na área científica, conseguia falar sobre o mundo das partículas, sem cair em erros ou confusões, desenvolvendo raciocínios coerentes, em terrenos aparentemente tão distantes e até hostis aos do seu múnus académico.

Vim mais tarde a saber que Nemésio gostava de estudar Física, por sua própria iniciativa, como simples autodidacta, sendo leitor interessado de livros de divulgação científica e até de livros de Física Atómica de nível universitário.

Ignoro como ele se desembaraçaria dessas leituras, mas sem dúvida que delas captou conceitos importantes, a julgar pelo que se lhe ouvia e pelo que ele próprio escreveu sobre o assunto, num livrinho que nos legou, com o sugestivo título de «Era do Átomo/Crise do Homem» que a Imprensa Nacional – Casa da Moeda publicou há poucos anos, na sequência de uma iniciativa louvável, de reeditar a sua obra literária mais significativa, num conjunto de cerca de trinta volumes.

Enorme serviço cultural, eminentemente educativo, prestaria ao País a RTP se voltasse a transmitir os programas de elevado cunho cultural de qualquer destes Grandes Comunicadores.

Com isso, as novas gerações poderiam, elas próprias, cotejar os ícones mediáticos actuais com os dessse tempo, para verem que, apesar do sistema político geneticamente avesso à Democracia, nem tudo nele era negro e muitos conseguiam transpor os limites impostos, rompendo com mentalidades retrógradas, mergulhadas num provincianismo atrofiante, mal de que ainda hoje não nos libertámos por completo, não obstante a «aldeia global» em que todos passámos a viver.

Além destes Grandes Comunicadores outros existiam, na Televisão a preto e branco, não tão brilhantes, mas igualmente de significativo mérito e não retenho de nenhum deles, como característica mais relevante, a rapidez de discurso, talvez com uma excepção, a do Maestro António Victorino de Almeida, que, entre as suas grandes qualidades de Comunicador, reunia também a da rapidez discursiva.

Estranha-se que a RTP e os demais canais televisivos o hajam praticamente esquecido, nunca ou raramente o convidando para aparecer em qualquer programa cultural. Em particular, no vasto universo cultural da Música Clássica, suponho que seja difícil encontrar no País alguém mais documentado na matéria do que o Maestro A.V. de Almeida, conhecimento potenciado pelos seus excelentes dotes de exímio Comunicador, pela sua extraordinária presença em frente das Câmaras, sempre muito descontraída, naturalmente movimentada, como peixe na água.

Dos mais modernos, relevo os nomes de Paulo Varela Gomes e Miguel Portas, que nos ofereceram, há alguns anos, um excelente programa sobre a presença portuguesa na Índia.

Pelas qualidades comunicativas exibidas, bem podia a RTP encomendar-lhes outros programas de semelhante recorte cultural, em lugar de se limitar a repetir enlatados, produzidos maioritariamente nos EUA, nos quais a visão objectiva e o rigor da narrativa, frequentemente, decepcionam quem possui algum conhecimento dos temas abordados.

Outro vício proeminente de certos falsos Comunicadores, como abundam actualmente, é que usam e abusam de recursos retóricos, para contornar a falta de conhecimento específico das matérias sobre que gostam de perorar, pensando e, para nossa desgraça, talvez consigam, com tal expediente, iludir determinados auditórios, menos inteirados das matérias por eles tratadas.

A própria retórica pode, no entanto, ser usada com perfeita oportunidade e proveito, desde que se exerça em matéria dominada. Nunca nenhuma retórica, porém, suprirá a falta de conhecimento adequado das disciplinas sobre que se discursa.

No final, para avaliar os Comunicadores, o que sempre subsistirá será a verdade, a seriedade e o rigor com que alguém fala sobre determinada matéria. Nenhum charlatão, por mais habilidoso que se revele, conseguirá jamais ludibriar toda a gente, todo o tempo, como creio ter afirmado um dia um dos Kennedies, com toda a razão, de resto, amiúde comprovada ao longo dos tempos, em variadas latitudes.

Os cínicos que, com sua estudada retórica, julgam tudo poder dominar, desde que se façam acompanhar dos apoios convenientes, carregando na demagogia, elogiando a mediocridade, a vulgaridade, procurando ganhar a simpatia das massas, a pretexto da pretendida popularidade, continuam, não obstante as suas artimanhas, a sofrer aqui e ali desagradáveis surpresas.

Lá vem tempo em que as suas rábulas acabam desmascaradas, porque sempre haverá quem não se deixe levar nas tramóias urdidas por esses falsos Comunicadores, que apenas buscam a sua rápida gloríola, a sua vantagem pessoal, sem escrúpulo com a verdade dos factos, que, invariavelmente, nas suas bocas, se vê, sem rebuço, sacrificada.

Porque só a verdade tem carácter perene; só o seu estrito respeito assegura a honorabilidade do Comunicador. Isto, que parece evidente a qualquer espírito são, torna-se difícil de entender aos pretensos Comunicadores, vulgarmente apelidados de Grandes Comunicadores, pela maior parte da Comunicação Social, que, também neste ponto, falta ao seu mais indeclinável dever, que é o de informar no respeito da verdade. Infelizmente, no entanto, quantas vezes vemos esta Comunicação Social agindo enfeudada a interesses espúrios, de grupos ou de figuras.

Caberá aos que prezam valores que sempre sustentaram sociedades, contra as forças que apostam na sua degenerescência, seja por natural malevolência, seja porque esperem, na sua doutrina ilusória, a partir dos escombros produzidos, erguer novo mundo, com paradigmas diferentes.

Vimos no que deu esta visão idílica, de que hoje pagamos o preço amargo, sob o império do neoliberalismo, com a arremetida furiosa de ideais egoístas, do êxito pessoal a todo o custo, com o concomitante desprezo de todos os laços e compromissos que asseguram a coesão social, sem a qual a vida em sociedade se transforma em luta brutal pela sobrevivência, transpondo-se para ela os mesmos fenómenos que observamos no reino animal, que, lembre-se, apenas se rege pela força cega de impulsos instintivos. Se não desejamos vir a viver em tão violento cenário, cumpre-nos repor o respeito dos valores.

No caso dos chamados Grandes Comunicadores, devemos denunciar as suas práticas demagógicas, o seu desvio do respeito da verdade dos factos e atender antes ao conteúdo racional daquilo que dizem, não sucumbindo à sua eventual elegância frásica, à sua rapidez discursiva, raramente em conformidade com os requisitos da verdadeira Comunicação.

Entre um falar ágil e mavioso, mas arredio da verdade do que profere e um outro, menos desembaraçado, porventura entrecortado de solavancos, mas em que existe raciocínio forte, coerente, assente no respeito da verdade dos factos, não pode admitir-se dúvida de preferência.

Só o Comunicador que revelar a observância deste último preceito merecerá o título de Grande Comunicador. Os outros representam a perversão da própria faculdade comunicativa, desvirtuando essa tão perseguida característica, entendida como trunfo indispensável a todo o aspirante a qualquer tipo de protagonismo na sociedade contemporânea.

Pior do que elogiar Comunicadores deficientes, falhos de dotes oratórios, é incensar aqueles que perversamente faltam à verdade, usando todos os recursos da retórica para mistificar, deturpar, distorcer os factos, no propósito de cativar auditórios ou multidões, episodicamente desprovidas de senso crítico.

Lembremo-nos do imenso mal que têm feito à Humanidade todos os Demagogos sem escrúpulos, que, no seu tempo de glória, no leviano critério das massas, também passaram por Grandes Comunicadores.

AV_Óbidos, 05 de Agosto de 2009

31.7.09

 

Sobre os termos Alcorão/Corão e Mafoma/Maomé


Em recente convívio com amigos e colegas de profissão, voltei a comprovar a geral confusão que persiste entre os Portugueses, mesmo entre pessoas cultas, informadas e actualizadas, como era o caso, sobre o vocábulo que, no nosso léxico, usamos para designar o livro sagrado dos Muçulmanos : o Alcorão, que muitos teimam em desprezar, preferindo o termo de origem francesa Corão. Alguns até julgam que com isso evitam o imaginado pleonasmo contido no vernáculo Alcorão, no que caem em lamentável equívoco.

Sendo este tão generalizado, vou aproveitar o ensejo para, modestamente, expender aqui algumas explicações, valendo-me do saber daquele meu saudoso Professor do Ensino Secundário da Disciplina de Português, o Dr. José Pedro Machado ( n. 08-11-1914 – f. 26-07-2005 ), ilustre Académico e cidadão probo, qualidades hoje difíceis de descobrir, ainda mais irmanadas na mesma pessoa, mas que nele eram absolutamente naturais, notórias e geralmente reconhecidas.

Nos últimos anos, em diversos fóruns, várias vezes a ele me tenho referido, sempre de forma elogiosa, como cumpre, a quem muito se considera beneficiado do seu amável convívio e da sua esclarecida erudição.

Posso mesmo dizer que José Pedro Machado terá sido a pessoa que, neste capítulo da pura erudição, mais me impressionou, tanto mais que, a essa condição, aliava a de uma simplicidade e lhaneza de trato sumamente invulgares nos tempos que correm.

Nunca eu certamente darei por supérfluos ou descabidos os encómios ou as meras referências que à sua figura possa tecer, sempre que a ocasião o propicie, como esta do momento presente, a propósito do esclarecimento do termo mais adequado para designar na nossa língua o livro sagrado dos Muçulmanos.

Como este eminente arabista, desafortunadamente, apesar da sua avançada idade, desaparecido do nosso convívio faz agora quatro anos, frequentemente esclareceu, o livro sagrado dos Muçulmanos designa-se, em bom português, por Alcorão (do ár. Al-quran, a leitura, por excelência, a do livro sagrado), tal como sempre escreveram os nossos escritores, desde o século XIII e XIV, incluindo os clássicos, como Camões ( Os Lusíadas, III, 50:8 e VII, 13:4 ) e os românticos, como Herculano, e quase todos os Historiadores desde então até aos escritores contemporâneos de língua portguesa mais escrupulosos no uso do vernáculo.

Só por hábito recente, por imitação dos franceses, que empregam o termo «Le Coran» e dos ingleses, com o seu «The Koran», se começou, entre nós, a preferir o termo Corão, sobretudo por influência francesa, muito intensificada a partir do século XVIII, embora em ambas estas línguas persista nos dicionários o termo « Alcoran ».

Como JPM explicou, p. ex., em « Palavras a propósito de Palavras – Notas Lexicais », da Editorial Notícias, 1992 e no seu Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, em 5 volumes, da Editora Livros Horizonte, 5ª edição, 1989 – o substantivo árabe, em regra, ao entrar na nossa língua, trouxe consigo associado o artigo definido árabe – al – e, por isso, temos em Português « o Alcorão », tal como «a alfaia», e não a faia, «o alguidar» e não o guidar, « o alfinete » e não o finete, «o alfaiate » e não o faiate, « o alferes » e não o feres, «o alcaide» e não o caide, «a almotolia» e não a motolia e assim por diante.

Muita gente, por gosto e vezo de francesias, acabou por aportuguesar o « Coran » francês, para « Corão », não cometendo com isso, certamente, nenhum crime de lesa-majestade, mas sem que haja necessidade de o fazer, nem, muito menos, é válida a justificação, para tal apontada, alegadamente, de que assim se foge ao suposto pleonasmo com a repetição do artigo já contido no termo Alcorão.

Trata-se, como mencionado, de um processo típico de incorporação de termos de língua árabe, substantivos, principalmente, no Português, em que aquela se fez, na formação do nosso vocábulo, aglutinando o artigo definido árabe «al» ao termo original. De resto, basta consultar qualquer obra de Filologia Portuguesa, de JPM ou de outro reputado autor, para se comprovar a doutrina.

Como se descobre, paira por aí muita confusão sobre estes assuntos do Árabe e do Português, o que não nos deve causar grande admiração, visto que daquele pouca gente sabe em Portugal e, do nosso próprio idioma, cada vez se sabe menos, situação que, naturalmente, potencia o aludido equívoco bastante difundido entre nós, pese todo o labor despendido a este respeito por José Pedro Machado e por tantos outros dos nossos eméritos estudiosos do Idioma, felizmente em grande número e que nos legaram vasta e variada obra, prenhe de conhecimento, que só aguarda a nossa porfiada consulta.

A talhe de foice, acrescentarei ainda, na continuação deste tributo à memória de tão emérito Mestre, que o nome do Profeta do Islão ( termo que significa submissão, subentendendo-se a Deus/Alá e não a qualquer Imã ou descendente do Profeta ) tem, em Português, vários termos ou designações, sendo os mais antigos e, por isso mesmo, de maior legitimidade, o de Mafoma ou Mafamede, como Camões usou em várias passagens de «Os Lusíadas» e não Maomé, que veio também por influência francesa.

Este termo veio a ganhar entre nós larga aceitação, mas tal não justifica o desterro daqueles outros, mais vernáculos, sem mácula de galicismo, hoje, com efeito, pecadilho de somenos, em face da enxurrada de anglicismos que invadiu a doce e formosa Língua lusitana, « última flor do Lácio », no dizer feliz e lapidar de um virtuoso sonetista, o poeta brasileiro Olavo Bilac.

Com a ajuda do insigne Mestre acima evocado, aqui fica, por conseguinte, este meu singelo contributo para o esclarecimento de um assunto que continua desnecessariamente a trazer tantos Portugueses mergulhados em duradouros equívocos e em descabidas confusões.


AV_Lisboa, 31 de Julho de 2009

24.7.09

 

A Propósito do Primeiro-Ministro que ainda Estará para Nascer



Custa-me voltar a Sócrates, mas a sua petulância a tal me obriga. Ouvi-lo a vangloriar-se das suas pretensas realizações, da forma hiperbólica como o fez, excede o que uma mente, ainda que muito cristã, o que não é manifestamente o caso, consegue aturar.

Estará ainda para nascer, disse esta estupenda sumidade «socialista», o Primeiro-Ministro que tenha feito melhor do que ele no controlo do défice orçamental, de novo caído para a casa dos 6 % do PIB, com as culpas imputadas à crise financeira internacional, está bem de dever, como de resto pelo desemprego, pela quebra do investimento estrangeiro, pela desindustrialização do País, pela quebra do Turismo, etc., etc. Abençoada crise internacional que ainda lhe dará um milagroso empurrãozinho eleitoral em Setembro próximo.

Poderá ele agora voltar a pedir ao seu camarada do BdP que o ajude a calcular este inesperado valor do défice, que espantosamente cresce, quando toda a Economia se retrai.

Sócrates invoca o aumento dos requerentes das prestações sociais para a sua justificação, dada a crise financeira internacional, sempre ela, a prejudicar Portugal, mas aproveitada por Sócrates, para o salvar das responsabilidades políticas, próprias e do seu Partido, fortemente cúmplice de um Governo medíocre e trapaceiro, como poucos tivemos nos últimos 35 anos.

Ainda só lhe vimos reconhecer alguma deficiência na área cultural. No resto a sua presunção passeia-se impante, impulsionada pelo vento forte da Demagogia, sua permanente musa inspiradora.

Perante isto que dizer de tamanha cumplicidade, dentro do Partido, com a excepção intermitente de Manuel Alegre, reconheça-se, embora seja muito pouco. E fora, na vasta Comunicação Social, em geral, prevalece uma atitude complacente, sem nenhuma comparação com a excitação que a percorre, quando práticas governativas idênticas ou piores pertencem ou pertenceram a Governos do PSD ou da Direita.

Esta, aliás, é, na dita Comunicação Social, tenebrosa, por regra, ou chega a ser quase pré-fascista, como amiúde é mediaticamente apresentada qualquer representação política à direita do PS, o partido charneira do sociedade portuguesa, como o classicava Soares, com aquele seu rigor ideológico ou político, celebrizado por cá e no no estrangeiro, onde, como se sabe, alcançou alta distinção, comprovada nos vinte e tal Doutoramentos recebidos.

Também aqui se poderia ajuntar que ainda estará por nascer outra figura política, intelectual, artística, cultural ou científica portuguesa capaz de agregar tanto título universitário.

Quanto aos manifestos de intelectuais independentes que ultimamente têm surgido todos muito preocupados com o futuro de Portugal, sobretudo se finalmente livre da tutela socrática, é caso para se perguntar se só agora terão acordado para a realidade do País.

Devem certamente ter adormecido no róseo regaço socrático desde o ano de 2005 e agora, subitamente estremunhados, sobressaltados com a terrível hipótese da punição eleitoral do seu devotado protector e inspirador, reúnem esforços e apoios para exorcizar o espectro da derrota.

Daqui até Setembro, iremos assistir ainda a mais alguns destes toques a reunir. Esperemos, no entanto, que os incautos se revelem em escasso número, a bem da pureza do ar que queiramos respirar.

Claro que do que se disse não deve inferir-se que a alternativa que se perfila seja isenta de dúvidas ou mesmo de temores. Bastou-nos a experiência barrosista e depois a santanista para percebermos com o que devemos contar.

Mas, primeiro há que sacudir um jugo, o presente, para, a seguir, se buscar melhor remédio. Sempre este princípio pareceu preferível a continuar a alimentar o mal em exercício. E nesta recomendação por ora fiquemos.

Haja fé que atrás do tempo, tempo vem, como cantava o Fausto em tempos de maiores esperanças e de enormes ingenuidades.

AV_Lisboa, 23 de Julho de 2009

7.7.09

 

A Desorientação Socrática



O grau de desorientação do Governo socrático cresce continuamente.
Os dois últimos episódios amplamente comentados na Comunicação Social e na diversificada blogosfera : o aparte ordinário do Ministro Pinho, em plena Assembleia da República e a proibição das candidaturas simultâneas nas listas do Partido para as várias eleições em curso, são disso prova concludente, ainda que em si mesmos se afigurem pouco relevantes.

No primeiro, tratou-se de alijar um confirmado caso de incapacidade natural da pessoa para o cargo que lhe fora atribuído.

No segundo, apesar de correcto, ele peca por se revelar excessivamente tardio e por conseguinte ferido de completa falta de sinceridade. Lá ficaram os casos das suas estrepitosas militantes Ana Gomes e Elisa Ferreira, à margem da regra ora imposta.

Assim, no espaço de dias, tivemos mais dois casos de evidente desorientação política, a somar ao da trapalhada da pretendida intromissão na TVI, por interposta empresa sob controlo político do Governo, aos avanços e recuos das Pontes, das Auto-estradas, dos TGV, etc., etc.

O Verão promete, por isso, ser politicamente bastante quente, mesmo que não atinja as temperaturas do outro Verão, por antonomásia, o Verão quente, o de 1975, quando tudo parecia possível de acontecer no País, incluindo uma verdadeira Revolução bolchevique ou uma prosaica, mas certamente, devastadora Guerra Civil.

Valeu-nos, então, a intuição salvífica de Soares, agindo naquele transe com acerto e sentido de oportunidade, o que o fez pender para o lado democrático, arrastando consigo a maioria do País.
Comprovou-se também aqui, mais uma vez, o velho aforismo segundo o qual ninguém está impedido de dizer ou fazer coisas correctas, úteis ou acertadas.

Felizmente, as alternativas já não se configuram tão dramáticas. Contudo, as circunstâncias actuais contêm suficientes germes de conflitualidade para desencadear um agitado Verão de 2009.

Haja discernimento suficiente para perceber, de novo, onde se aloja o mal maior, pese toda a habilidosa manobra socrática, no campo da Comunicação Social, onde, de resto, ela conta com numerosos e eficientes sequazes.

AV_Lisboa, 06 de Julho de 2009

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